Silvino Santos é tema do “Diálogos Audiovisuais”

Foto: Acervo/Divulgação Silvino-Santos-filmando-o-salto-de-Teotonio-no-Rio-Madeira-para-o-filme-no-Paiz-das-Amazonas-em-1921-mandado-fazer-pela-casa-J.-G.-de-Araujo-de-Manaus (1)

A nova edição do “Diálogos Audiovisuais” mergulha fundo na história do cinema amazonense: no próximo sábado (25), às 19h, acontece a exibição do filme “No Paiz das Amazonas”, de Silvino Santos, seguida de debate com o pesquisador Sávio Stoco, que estuda a obra do realizador em sua pesquisa de doutorado. A sessão acontece na sede do Coletivo Difusão, na Rua Boa Sorte, 555, Presidente Vargas (Bairro da Matinha). A obra remonta ao início do século XX, período em que Silvino Santos, português radicado no estado, destacou-se ao documentar por quase duas décadas a região. O projeto é uma iniciativa do Centro Popular do Audiovisual (CPA).

A proposta dos “Diálogos Audiovisuais” é conciliar exibições de filmes com discussões sobre o cinema de forma mais ampla, com foco em pessoas que se interessem por processos e história do cinema. Allan Gomes, um dos coordenadores do CPA, destaca os objetivos da organização: “O CPA visa estimular toda a cadeia produtiva do audiovisual, por meio da formação, produção, pesquisa, exibição e circulação de obras e profissionais. Assim, o ‘Diálogos Audiovisuais’ vem de encontro a essa necessidade de colocarmos em contato pesquisadores, profissionais e o público da cidade interessado no tema”.

A obra de Silvino Santos é referência para o audiovisual na região, e por muito tempo ficou esquecida, até que cineclubistas, já nos anos 1960, a redescobriram em Manaus e realizaram as primeiras pesquisas acerca da obra do cineasta. “O curador amazonense Cosme Alves Neto parece ter tido um papel muito importante para que Silvino fosse estudado e apreciado neste tempo”, avalia Sávio Stoco, jornalista e pesquisador. Atualmente, ele é doutorando no Programa de Pós-graduação Meios e Processos Audiovisuais da ECA/USP (Universidade de São Paulo), onde estuda a obra de Silvino.

Em entrevista, Sávio fala um pouco mais sobre o contexto da obra de Silvino Santos e sua importância para o audiovisual amazonense:

Silvino Santos foi o pioneiro do cinema no Amazonas no início do século XX, ficou esquecido de certa forma, até que a geração cineclubista dos anos 1960 o redescobrisse aqui no Amazonas. No entanto, os estudos dessa geração de certa forma ficaram isolados aqui no estado, e só agora no início do século XXI a produção acadêmica de outros lugares do país parece ter se interessado pela figura dele. A que você atribui essa “segunda descoberta”?

Acho que essa onda de interesse, no século XXI, sobre Silvino está atrelado a novos encaminhamentos da história do cinema, dos estudos históricos das imagens, e às instituições de pesquisa que lidam com o fazer desta história. Uma história não mais focada em buscar e identificação dos pioneiros (não que as pesquisas neste período tenham feito somente isso). Agora vemos investigações que buscam entender como os filmes, os diretores, as imagens, e outros fenômenos comportavam-se na intimidade em seu tempo. Isso quer dizer: como se relacionam com um universo de materiais diversos, como a política, as outras artes, outros localidades, os públicos, as instituições – enfim, com a história e a sociedade de seu tempo, de uma maneira bem ampla. As novas pesquisas mostram como ainda há muitos aspectos relevantes a se compreender.

A impressão de que “só” agora Silvino Santos interessa pessoas para além do Amazonas, acho que diz respeito a um amadurecimento dos estudos de cinema. Antes esse meio era bem mais restrito em número de pessoas do que é hoje. Agora há bem mais gente, mais eventos, enfim, um campo ampliado e dinâmico. Mais pesquisadores e instituições com possibilidades de contribuir para o debate.

Muito da obra do Silvino se perdeu, outra grande parte foi parar em outros países. Fora a produção de longa-metragens, o que ainda tem para ser conhecido sobre o trabalho do Silvino?

Essa é a “pergunta de um milhão de dólares”! Brincadeira à parte, acho que as principais contribuições seriam refinamento da pesquisa direcionada à reconstituição de filmes como Amazonas, maior rio do mundo (1918-1920), o qual não conhecemos praticamente nada, e Terra Encantada (1923), sobre o Rio de Janeiro. Assim, futuramente seria possível visionarmos pelo menos trechos reunidos e bem organizados destes filmes, compreendendo mais das narrativas originais. De ambos, infelizmente não acredito na possibilidade de vê-los inteiros um dia. A não ser que uma cópia milagrosa apareça. Há uma estimativa da Cinemateca Brasileira de que dos títulos de filmes brasileiros do período silencioso (até 1930, mais ou menos) só sobrou 7%, e deste montante a maioria são apenas trechos e não o filme inteiro.

Ouvi notícias de descobertas recentes, no Peru, de filmes que Silvino filmou naquele país na década de 1910. Mas não vi, nem tenho dados sobre a veracidade disso.

Qual a importância de se estudar a obra de Silvino Santos ainda hoje? Com o constante foco de pesquisas na obra dele, ainda há o que estudar?

O Silvino foi um importante criador. Antes que o cânone do documentário estivesse posto ele estava fazendo seus filmes documentais e se destacando nacionalmente e internacionalmente pela forma como filmou. No Brasil, o grande sucesso foi “No paiz das Amazonas” e fora do país se destacou “Amazonas, maior rio do mundo”. Pelo que descobri em pesquisas recentes, este último filme circulou com outro título (já que foi roubado) por quase uma década em diversos países da Europa e com sucesso. Para se ter uma ideia, revistas italianas cinematográficas apontavam este filme, como um dos destaques da temporada ao lado de Nanook (1922), de Robert Flaherty – tido pela história do cinema como um marco inicial do gênero. Ou seja, não é pouca coisa. Por essas conquistas no campo da criação, já mereceria ser muito bem estudado, sob diversos enfoques.

Acontece que há uma dimensão a mais na produção de Silvino. Ele foi um cineasta tão internalizado na cultura oficial da sua época que criou suas obras a partir de uma tradição de discursos e imagens sobre a região amazônica que vem desde o século XIX. Ele pega estas referências e cria filmes a partir delas, atualizando questões. Então, neste sentido, há toda uma importância, para as Artes Visuais, em conhecer estas permanências nas criações visuais. Senão nunca iremos entender os longos tempos de constituição das imagens e das ideias sobre a região. Um percurso que não termina nele e continua chegando até nós, mesmo na era digital.

Não acho que há um “constante foco” de pesquisas sobre ele, exatamente. Há muitas lacunas. Ninguém estudou os filmes de família, os filmes portugueses, nem Terra Encantada ou sequer o filme sobre Vila Amazonas (Parintins). É uma obra de muitos desafios porque está espatifada, dividida em vários acervos, com muitas dificuldades de acesso – como boa parte do cinema daquela época. Necessita de pesquisas para reconstituir os filmes, organizar acervos. Assim como de pesquisas históricas e analíticas. Um grande esforço que não será todo desvendado, nem pela nossa geração.

Serviço

O quê: ‘Diálogos Audiovisuais’ com Sávio Stoco e exibição da obra “No Paiz das Amazonas”, de Silvino Santos
Quando: 25/03 (sábado), a partir das 19h
Onde: Coletivo Difusão – Rua Boa Sorte, 555, Presidente Vargas (Bairro da Matinha)
Quanto: Gratuito


Com informações de assessoria

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