Livro resgata mitos, lendas e idiomas do Amazonas

Foto: Divulgação/Poranduba Amazonense poranduba amazonense

“É um grito da memória do Amazonas, um testemunho de sua diversidade cultural”. Assim o escritor Tenório Telles, membro da Academia Amazonense de Letras, define a obra que levou cerca de dez anos para organizar – a versão atualizada de “Poranduba Amazonense”, do botânico mineiro João Barbosa Rodrigues (1842-1909). O livro, que estará em breve nas livrarias, reúne mitos, lendas e cantigas amazônicas coletadas na segunda metade do século 19. Na obra, 40 páginas ainda são dedicadas ao vocabulário da língua indígena nheengatu, com tradução para o português.

A obra aborda o trabalho realizado por João Barbosa Rodrigues, que compreendeu o universo amazônico para além de sua dimensão paisagística. Entre 1872 e 1875, o governo imperial designou Barbosa para realizar pesquisas pelos rios da Amazônia e, em 1883, para dirigir o Museu Botânico de Manaus. Durante esse período, o cientista foi além do trabalho designado e buscou registrar as narrativas orais da cultura amazônica.

Ao longo dos 10 anos debruçados nesse projeto, uma das principais dificuldades de Tenório foi atualizar a ortografia e parte da linguagem usada por Barbosa, datada do século 19. “Considero esta empreitada editorial, pela complexidade e dificuldade enfrentadas para sua realização, o trabalho da minha vida como editor”, afirma.

Tenório explica que a obra tem valor significativo para o País, que dá importância às narrativas da região e permite que novas gerações tenham contato com a cultura do Amazonas. “Ao longo desses 150 anos, muitas histórias e línguas se perderam porque não foram registradas”, pondera.

Ao folhear o livro, o leitor se depara, por exemplo, com a lenda “A origem do Solimões”. A lua, por não poder se casar com o sol, chorou dia e noite e, assim, deu origem ao rio Amazonas. “Os povos indígenas têm mitos que ilustram a forma como pensam o mundo. São narrativas poéticas e delicadas. Nesse caso, o Rio Amazonas é um rio que nasceu do amor”, explica Tenório.

Para Tenório, a obra, além de importante para a Cultura do País, é também uma homenagem e uma reparação sobre o silêncio em relação ao trabalho de Barbosa. Embora reconhecido como um dos cientistas mais importantes do Brasil, seu trabalho ficou restrito a círculos científicos.

“Esta obra é uma celebração da vida e da contribuição intelectual desse herói da ciência brasileira e desbravador da Amazônia”, escreve Tenório na apresentação do livro. “(É um empreendimento) de resgatar do esquecimento esta obra fundamental da cultura nacional e indispensável para compreendermos o processo de constituição identitária das populações que habitam as muitas margens dos rios amazônicos”.


via Ministério da Cultura

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