Parintins: artes e intercâmbios além do boi-bumbá

Foto: Ingrid Anne/Manauscult Parintins, 01/07/2018. Projeto Mapa das Cores. Foto: Ingrid Anne/Manauscult

Nem só de vermelho e azul vive a Ilha Tupinambarana: tons de verde, preto, amarelo, branco e tantos outros, em traços diferentes, se misturam nos muros em frente ao Bumbódromo e no Centro de Parintins, próximo à catedral. Fora da região central, em outras ruas espalhadas pela cidade, também é possível encontrar paredes que estampam figuras de crianças e mães indígenas e ícones famosos e internacionais, como Frida Kahlo, todos em uma explosão de cores e diferentes técnicas.

As pinturas a céu aberto são fruto tanto do trabalho de artistas parintinenses que têm despontado na cena, como o coletivo Os Curuminz e Josinaldo Matos, quanto do intercâmbio com artistas já conhecidos no meio regional e nacional, como Romahs Mascarenhas, Turenko Beça e Raiz Campos, que levaram à cidade, neste fim de semana do Festival Folclórico de Parintins, entre os dias 28/6 e 2/7, o projeto “Mapa das Cores”, uma das iniciativas que integraram a “Caravana da Cultura”, realizada pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC), na ilha.

Intercâmbio

Romahs Mascarenhas em ação finalizando o painel do Boi Caprichoso no muro do Bumbódromo, em Parintins. (Foto: Ingrid Anne/Manauscult)

Na avenida das Nações Unidas, logo em frente ao Bumbódromo, dois painéis diferentes, um de cada lado, agora contam a história dos bumbás Caprichoso e Garantido em forma de quadrinhos. O trabalho foi realizado em parceria entre Romahs Mascarenhas, natural da ilha, conhecido nacionalmente por seu trabalho em HQs, e estudantes da cidade, tanto do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), quanto do Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro.

Entre tintas, gargalhadas, conversas e trocas de experiências, o resultado se mistura com as artes já presentes no muro do Bumbódromo, mas trazendo uma estética diferente ao conjunto, vinda do universo dos quadrinhos. Do lado do Caprichoso, a finalização é do próprio Romahs; do lado do Garantido, a concepção é do artista, mas a arte final ficou a cargo dos próprios alunos. Como Romahs conta, neste caso não foi utilizado o graffiti, e sim técnicas de trincha e pincel.

Nitta Paes. (Foto: Ingrid Anne/Manauscult)

Para a estudante Nitta Paes, da Ufam, que participou desde o primeiro dia de intercâmbio, a experiência foi enriquecedora. “Quando eles trouxeram essa proposta de fazer um trabalho urbano e externo, a gente se interessou bastante, porque é novo ter essa oportunidade de vir pintar a área de fora do Bumbódromo e fazer uma intervenção como essa”, afirmou.

A troca de conhecimentos também foi nova para o próprio Romahs, que já tinha feito um workshop de cartum em setembro de 2017, no Liceu em Parintins, mas ainda não havia feito uma intervenção do gênero na cidade.

“A ideia era sair um pouco da estética usual de Parintins, que é um desenho artístico mais realista, e mostrar esse desenho mais simplificado que é o cartum. A aceitação foi muito grande, e os garotos não só gostaram muito de aprender essa estética, como até fizeram um concurso de cartum dentro do Liceu”, contou Romahs. “Por isso, agora me reuni de novo com esses alunos para fazer essa ‘interferência’, usando esse traço. Buscamos fazer um painel do Caprichoso e um do Garantido, que tivessem essa relação direta com o cartum e a estética dos quadrinhos, contando a história dos bois”.

Ainda segundo Romahs, a estética do boi-bumbá e a ótica do cartum já têm ligações em sua história, e o resultado dos painéis é uma mistura rica que representa isso. “Tudo isso tem uma estética que já foi usada no boi. [A arte] é a minha versão cartum de uma roupa, de uma indumentária, de uma alegoria real que já entrou no Bumbódromo. Só demos um reprocessamento, e tem sido muito legal, porque essa garotada apreende o novo muito bem e reprocessa”, destacou. “A própria estética do boi já é influenciada pelos quadrinhos, por heróis como ‘Conan’ e pelo trabalho de capistas de HQs, por exemplo”.

“Estamos adquirindo muito conhecimento, porque é uma técnica bem diferente do que estamos acostumados. É a primeira vez que faço uma intervenção dessas, e tô bem feliz. Às vezes, ficamos produzindo muito apenas em laboratórios dentro da instituição, então é muito bom aproveitar uma oportunidade de fazer um trabalho externo desses”, ressaltou Nitta, enquanto acompanhava e participava da atividade com empolgação.

Graffiti e stencil no Centro

Raiz Campos finalizando pintura no muro da avenida Armando Prado, em Parintins. (Foto: Ingrid Anne/Manauscult)

Já na avenida Armando Prado, no Centro, próximo à Catedral de Nossa Senhora do Carmo e ao Cemitério São José, o painel que espelha a imagem de dois índios entre elementos cósmicos nasceu a quatro mãos: a obra é de Raiz Campos, já conhecido por seu trabalho nos viadutos de Manaus, e de Josinaldo Matos, professor de desenho do Liceu Cláudio Santoro em Parintins, e figura que tem se tornado uma das principais referências das artes visuais na ilha.

Pintando pela primeira vez em Parintins, Raiz conta ter realizado um sonho, conhecendo a cidade e entrando em contato com os artistas locais da cena da arte urbana. O artista já tem feito um trabalho de intervenção em outros municípios do interior do Amazonas, mas nunca tinha ido à ilha. “A arte sempre entra como essa ferramenta de conscientização e socialização, onde a gente consegue passar nossa mensagem e reunir várias pessoas pra fazer uma mesma tela”, comentou.

Tanto Raiz quanto Romahs contam que a street art em Parintins tem crescido e chamado a atenção na cidade. O convite de Raiz a Josinaldo para participar da intervenção no muro surgiu a partir da admiração pelo trabalho do parintinense, um dos poucos expoentes a usar a técnica do stencil, que usa um molde vazado para preencher com pintura.

“O graffiti não é somente uma experiência estética e de pintura, mas sim de interação com a cidade. A gente pegou um muro velho, que nunca foi pintado, e chegamos com cores, alegria, uma caixa de som. As pessoas param, observam, tiram fotos, querem ajudar. Toda essa interação é sinal de que está dando certo”, contou Raiz, entusiasmado com a ação. “O graffiti cria uma relação com a vida das pessoas. A gente se reconhece, se vê nas pinturas, no trabalho local, e isso é muito legal, pois a arte urbana tem tido um reconhecimento que não tinha antes. Cada um tem que pintar o que viveu, e eu pinto o que vivi. Cada artista pinta o que é”, ressaltou.

O resultado, segundo Raiz, é um presente a quatro mãos, produzido por ele e Josinaldo, que fica para a cidade. Ainda no mesmo muro, na outra ponta, o primeiro painel foi produzido pelos próprios alunos que participaram das oficinas, a partir das técnicas e dicas ensinadas por Raiz. Nele, o nome de Parintins surge em um fundo de tons amarelos e laranjas, entre elementos como tucanos, índios, folhas e cobras. Finalizando a arte na avenida Armando Prado, um terceiro painel conta com grafismos de Turenko Beça, que também participou do intercâmbio artístico em Parintins.

“Fui muito bem recebido aqui e já ouvi até dizer que a própria cidade, depois dessa ação, passou a enxergar diferente a arte urbana. As pessoas vieram, tiraram foto, reconheceram a beleza e a expressão e até a própria dificuldade de quem começa a trabalhar nisso em manusear o material”, contou Raiz.

Mural na avenida Armando Prado, em Parintins. (Foto: Ingrid Anne/Manauscult)

Um dos alunos do Liceu, Denis Amoedo, foi um dos artistas entusiasmados que aproveitou para participar da composição dos desenhos do muro. “Sempre gostei de graffiti, mas essa foi a primeira vez que eu fiz um trabalho desses com spray. Com certeza já tenho planos pra um próximo”, afirmou.

Murais, b-boys e super-heróis pela ilha

Conversar com qualquer um desses artistas desvela uma cadeia de ligações que mostra que, definitivamente, há um universo de artes além do boi-bumbá a se descobrir em Parintins, e que nem cabe numa só matéria. A começar pelo próprio Josinaldo Matos, que tem espalhado seu trabalho em stencil pelas ruas da cidade: figuras indígenas, cenas cotidianas e manifestações políticas são alguns dos trabalhos do artista que se pode encontrar andando pela Ilha Tupinambarana, compondo a sua série “Ancestralidade” e transformando os muros em galerias a céu aberto.

Arte em stencil de Josinaldo Matos em Parintins. (Foto: Gabriel Oliveira/Manauscult)

Arte de Josinaldo Matos em Parintins. (Foto: Gabriel Oliveira/Manauscult)

Na contramão desse estilo, os artistas do Curuminz, Alzyney Pereira e Kemerson Freitas, usam e abusam de cores e mosaicos para retratar personalidades conhecidas e anônimos em muros pela cidade, num trabalho que tem um pé na pop art. As artes têm chamado a atenção inclusive online, com as redes da dupla continuamente atualizadas mostrando suas novas pinturas Parintins afora.

Além da cena da arte urbana, outras ramificações de artes alternativas surgem pela cidade: Nitta Paes, por exemplo, é uma das integrantes do movimento hip-hop em Parintins, que tem se expandido e se caracteriza principalmente pela presença e trabalhos desenvolvidos por b-boys e dançarinos de break dance na ilha.

Já o cartum não está só no painel de Romahs Mascarenhas: o parintinense Brandon Lee Amazon (o nome não é mera coincidência), desenvolve em seus quadrinhos um trabalho de dar inveja a DC e Marvel. Em seu próprio universo expandido, Brandon criou super-heróis amazônicos, como a Mulher Arara (ou Princesa Iris), a Garça Branca, o Urubu Rei e a Libélula Verde. São os Titãs da Amazônia, ou Amazon’s Titans, que, defendendo a fauna e flora amazônicas em suas aventuras, já ganharam uma primeira tiragem em revista, e agora Brandon busca apoio enquanto planeja sua próxima edição.

Posted by Amazon's Titans on Wednesday, September 27, 2017

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Projeto Mapa das Cores 01/07/2018


Gabriel Oliveira
Especial para Viva Manaus

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