Paes Loureiro discute dimensões do corpo em palestra

Foto: Ingrid Anne/Manauscult Palestra Prof. Paes Loureiro em Manaus - Foto: Ingrid Anne/Manauscult

O corpo como instrumento que ultrapassa o seu valor biológico, tornando-se expressão humana nos vários campos sociais, como artes, cultura, política e religião, foi o tema da palestra do escritor e poeta paraense João de Jesus Paes Loureiro, na tarde desta quarta-feira, 20/6, no Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos (Icbeu), na avenida Joaquim Nabuco, Centro.

O evento foi realizado pelos programas de Pós-Graduação em Sociologia e de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura da Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com o apoio do Icbeu e da Prefeitura de Manaus, por meio da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult).

Loureiro citou exemplos, ao longo da História, para exemplificar como enxergamos e trabalhamos o corpo humano e como a sua fragmentação na cultura atual se reflete na fragmentação da justiça, ciência, tecnologia e o modo de enxergar a vida pela sociedade contemporânea.

“O corpo é a realidade mais concreta do ser humano, mas não apenas por aquilo que de concreto se vê. É uma complexidade formada por carne, osso, sangue circulando, alma, espírito, intuição, sensibilidade, todas essas coisas que constituem o corpo. O corpo é uma universalidade para as artes, não apenas para a dança, mas está presente na poesia, no teatro, nas celebrações, no amor, no misticismo, etc. É essa universalidade que quero tratar numa dimensão artística”, afirmou o poeta.

Para Loureiro, a expressão do corpo-arte se dá no corpo utilitário (biológico), se fundindo numa expressão semiótica, ressignificando os sentidos do mesmo, e exemplos disso podem ser encontrados na tatuagem, que ele classifica como um desnudamento do ser em busca de tornar invisível o não-ser. “Lembremos da cantora Amy Winehouse, cujo destino escreveu em sua pele a tragédia de buscar uma felicidade cada vez mais infeliz. O seu corpo gravou a escritura fatal de sua vida, no pânico desesperado de amar sem ser amada. Estava escrito na pele por meio das tatuagens”, exemplificou.

Palestra Celebração do Corpo com Joao de J. Paes L

Corpo digital e vida moderna

O poeta discorreu ainda sobre o corpo digital que, por meio de imagens, revela um desdobramento do narcisismo intercorrente com o desencantamento do corpo real. “A imagem digital tem autonomia, e parece um outro corpo se construindo, independente do modelo que é criado. O corpo virtual não tem rugas nem varizes, é idealizado na materialização do imaginário, o corpo-utopia que recusa a semelhança fiel”, explicou.

Já entre os indígenas, segundo o professor, o corpo e a pele são símiles da paisagem, que se integra a ela, mas que não é retratada nem reconhecida academicamente. “Há uma dificuldade de compreender a cultura amazônica porque não há estudo sobre a presença do imaginário e da oralidade, não há instrumental pra analisar científica e academicamente isso. Dentro da universidade, a relação sempre é feita com o universal, o que muitos já fizeram, deixa ndo de lado a originalidade que nós temos”, comentou.

O autor explicou ainda porque a fragmentação do homem é correlata à fragmentação da vida moderna. “Na fotografia e no cinema, os closes, que são os detalhes, demonstram a importância do mesmo porque o imaginário recompõe o todo. No entanto, não relacionamos o todo na fragmentação destes valores na sociedade”, afirmou.


Steffanie Schmidt
Equipe Viva Manaus

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