Marcello Dantas, curador do Museu da Cidade de Manaus_Paço da Liberdade - Foto_ Ingrid Anne_Manauscult
Marcello Dantas, curador do Museu da Cidade de Manaus_Paço da Liberdade - Foto_ Ingrid Anne_Manauscult

A identidade do povo manauara pelas mãos, olhar e ideias de um dos mais importantes curadores do país. Marcello Dantas, produtor e diretor artístico, assina a exposição permanente “A Cidade de Manaus: História, Gente e Cultura”, que transformará o Paço da Liberdade no Museu da Cidade de Manaus, um museu interativo e tecnológico, o primeiro a contar a história do manauara.

O Museu da Cidade de Manaus é o primeiro trabalho permanente no Norte do país sob curadoria de Dantas, curador de grandes e importantes museus no Brasil e no mundo, como o da Língua Portuguesa, das Minas e do Metal e o mais recente Japan House. Antes disso, apenas trabalhos pontuais foram feitos pela Amazônia, como ele explica. Com a proposta de despertar os sentidos dos visitantes num processo de interatividade e identificação, o Museu da Cidade de Manaus, na visão do curador, celebra a diversidade da cidade.

“Esse museu tem algo de especial, pois ele celebra essencialmente a diversidade de Manaus. Diversidade humana e natural. Mostra como Manaus e a Amazônia se transformaram em lar de pessoas de origens tão diversas e, ao mesmo tempo, como essas pessoas foram seduzidas pela força e energia da natureza local, e também como essa cidade dialoga com o resto do mundo”, comentou Marcello.

Sobre os formadores desta civilização no coração da Amazônia, Dantas também atribui grande importância, destacando a relevância do processo migratório, base de formação dos amazônidas.

“A característica mais longeva do ser humano é a migração. Desde os mais remotos tempos o homem se desloca. É também o maior causador de desenvolvimento, criatividade e aprendizado. Toda cidade tem que se orgulhar daqueles que a elegem para viver. Essa é a forma de amor que surpreende uma sociedade que abre canais de contato e inovação. Manaus tem muito que se orgulhar de todos os que optaram por ajudar a construir essa identidade múltipla”, destacou.

Conhecedor da história e cultura regional, Dantas se revela um apreciador dos saberes e sabores amazônicos e destaca sua relação com o Amazonas, intensificada durante o processo de pesquisa do museu. Para ele, o que mais lhe fascina é a biodiversidade e a criatividade do povo nortista.

“Eu já havia estado muitas vezes em Manaus e na Amazônia. No fim dos anos 90, fiz dois filmes nessa região. Naveguei pelos rios, provei as delícias. Depois, nos anos 2000, fiz um projeto para a Suframa [Superintendência da Zona Franca de Manaus] e conheci o Polo Industrial. Mais tarde, minha namorada é neta do Dr. Warwick Kerr, um dos pesquisadores mais importantes do Inpa [Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia]. Então, tenho vários vínculos com a cidade”, contou.

Museus na era digital

Para Marcello Dantas, a sociedade mudou e o museu também precisa mudar, ganhando relevância nesse novo cenário. “O maior problema dos museus não é o seu conteúdo, mas sua linguagem. As pessoas estão famintas de conhecimento, de compensar suas lacunas educacionais e também de aprender e explorar de forma divertida e generosa”.

Sobre essas transformações, o curador afirma que a mudança de linguagem dos museus era algo muito necessária, sob pena deles se transformarem em locais irrelevantes para a sociedade. “Sem vínculo afetivo nada será preservado. Eu me preocupo em encontrar linguagens, as mais variadas, para contar velhas histórias de um jeito que os jovens podem se engajar. Às vezes podem ser soluções simples, outras mais complexas, mas todas visam encontrar um ponto de contato mais intenso com o público. O Brasil e o mundo melhoraram muito nesse sentido nos últimos 20 anos”, ressaltou.

O Paço da Liberdade passa neste momento por seu processo de transformação e, no dia 24 de outubro, data em que a cidade de Manaus comemorará 349 anos, será entregue aos manauaras. Sobre suas expectativas como curador dessa exposição que será um marco de transição da história do Paço, Dantas destaca o valor simbólico.

“Eu queria que nesse Museu pelo menos um pouco do valor simbólico e da autoestima do manauara fosse resgatada. A única coisa que me entristece em Manaus é ver que muita gente ainda não se deu conta do absurdo espetacular que essa região nos oferece. Espero ajudar a mudar um pouco disso para as próximas gerações pelo menos”, finalizou.


Mônica Figueiredo
Equipe Viva Manaus